Marion Stokes: A Guardiã da História Televisiva
Marion Marguerite Stokes, nascida em 25 de novembro de 1929 na Filadélfia, Pensilvânia, foi uma figura fascinante e multifacetada: bibliotecária, ativista pelos direitos civis, produtora de televisão, investidora e, acima de tudo, uma arquivista visionária.
Sua vida foi marcada por um compromisso intenso com a preservação da verdade, culminando em um dos projetos de arquivamento pessoal mais ambiciosos da história.

Inícios e Ativismo
Stokes trabalhou como bibliotecária na Free Library da Filadélfia nas décadas de 1940 e 1950.
Paralelamente, envolveu-se ativamente no movimento pelos direitos civis, ajudando a organizar ônibus para a Marcha sobre Washington em 1963 e participando de esforços para integrar instituições como o Girard College.
Ela também foi presidente do comitê Fair Play for Cuba, opondo-se ao boicote econômico à Cuba.
Na década de 1960, casou-se com Melvin Metelits, com quem teve um filho, Michael.
Mais tarde, divorciou-se e casou-se com John Stokes Jr., um homem rico que a apoiou financeiramente.
Juntos, produziram o programa de televisão local Input, uma série de debates semanais exibida em uma afiliada da CBS na Filadélfia entre 1968 e 1971.
Stokes era uma comunista declarada e feminista, apaixonada por tecnologia – era fã ardorosa da Apple, investindo cedo na empresa e acumulando centenas de computadores Macintosh.
O Projeto de Arquivamento
O que tornou Marion Stokes verdadeiramente única foi seu projeto obsessivo de gravar notícias televisivas.

Em 1975, adquiriu um gravador Betamax e começou a registrar programas esporadicamente. No entanto, tudo mudou em 4 de novembro de 1979, com o início da Crise dos Reféns no Irã.
Preocupada com a manipulação da informação e o risco de que detalhes históricos desaparecessem, Stokes decidiu gravar as notícias 24 horas por dia, sem interrupções.
Ela operava até oito gravadores VHS e Betamax simultaneamente, capturando canais como CNN (lançada em 1980, marcando o início da era de notícias ininterruptas), MSNBC, Fox News, C-SPAN, CNBC e emissoras locais.
Não perdia nada: guerras, revoluções, desastres, talk shows, comerciais e até erros ao vivo.
Sua motivação era “proteger a verdade” em uma era de “fake news” – décadas antes do termo se popularizar.
Ao longo de 35 anos, até sua morte, acumulou cerca de 71 mil fitas (VHS e Betamax), equivalentes a centenas de milhares de horas de gravação.
Para armazená-las, comprou nove apartamentos extras na Filadélfia apenas para estoque, além de unidades de armazenamento.
Legado e Morte

Marion Stokes faleceu em 14 de dezembro de 2012, aos 83 anos, vítima de doença pulmonar.
Ironicamente, morreu enquanto as televisões transmitiam notícias sobre o massacre de Sandy Hook – as gravações continuaram até o último momento.
Sem instruções específicas, seu filho Michael doou a coleção ao Internet Archive em 2013.
É a maior doação única que a organização recebeu, e está sendo digitalizada gradualmente (o processo é caro e demorado, ainda incompleto em 2025 devido à falta de fundos).
Partes já estão disponíveis online, permitindo que pesquisadores acessem um registro inigualável da história televisiva americana.
Sua vida inspirou o documentário Recorder: The Marion Stokes Project (2019), dirigido por Matt Wolf, que explora sua genialidade, obsessão e o preço pessoal pago por essa dedicação.
Marion Stokes foi uma pioneira: em uma época em que redes de TV descartavam suas próprias gravações, ela preservou um espelho da sociedade, mostrando como a televisão moldou nossa percepção do mundo.
Seu arquivo não é apenas uma coleção de fitas – é um testemunho da importância de arquivar a história em tempo real, para que as gerações futuras possam julgar os fatos por si mesmas.



















