Francys Arsentiev: A Bela Adormecida do Everest
Francys Arsentiev, conhecida postumamente como a “Bela Adormecida do Everest”, é uma figura que transcende o mundo do montanhismo.
Não apenas por sua conquista histórica, mas pela tragédia que marcou sua vida e morte no Monte Everest.
Sua história é um lembrete comovente dos riscos extremos enfrentados por aqueles que desafiam as maiores alturas do planeta.
Além disso, levanta questões profundas sobre ética, ambição e os limites da resistência humana.
Este artigo explora a vida de Francys, sua paixão pelo montanhismo, sua ascensão histórica ao cume do Everest sem oxigênio suplementar.
E o desfecho trágico que a transformou em um símbolo duradouro no imaginário do montanhismo.
Primeiros Anos e o Chamado das Montanhas
Francys Yarbro Distefano-Arsentiev nasceu em 18 de janeiro de 1958, em Honolulu, Havaí, filha de John Yarbro e Marina Garrett.
Desde jovem, Francys demonstrou uma afinidade com a natureza e o ar livre.
Aos seis anos, seu pai a levou para as Montanhas Rochosas do Colorado, uma experiência que despertou nela uma paixão duradoura por montanhas e aventuras ao ar livre.
Essa conexão inicial com a natureza moldaria o curso de sua vida.
Francys cresceu entre os Estados Unidos e a Suíça, onde frequentou a American School in Switzerland (TASIS).
Mais tarde, ela estudou no Stephens College e se formou na Universidade de Louisville, antes de obter um mestrado na International School of Business Management, em Phoenix.
Durante a década de 1980, trabalhou como contadora em Telluride, Colorado, uma cidade conhecida por sua vibrante cena de esqui e montanhismo.
Embora sua carreira profissional fosse no campo financeiro, seu coração estava nas montanhas.
Foi em Telluride que Francys conheceu Sergei Arsentiev, um renomado alpinista russo apelidado de “Leopardo da Neve”.
Era conhecido por suas conquistas em escalar os cinco picos mais altos da antiga União Soviética.

Sergei, um homem de inteligência aguçada e habilidades físicas impressionantes, também trabalhou como engenheiro elétrico e cientista de foguetes.
Contribuindo com inovações como o uso de magnetismo nos polos terrestres para estabilizar satélites espiões.
A conexão entre Francys e Sergei foi instantânea, marcada por uma paixão compartilhada por aventuras em alta altitude.
Eles se casaram em 1992, após se conhecerem durante uma expedição ao Annapurna, em 1991, e juntos começaram a traçar um caminho notável no montanhismo.

Uma Carreira no Montanhismo
Embora Francys não fosse uma alpinista profissional ou movida por uma obsessão fanática, como muitos que enfrentam o Everest, ela rapidamente se destacou no esporte com o incentivo de Sergei.
Juntos, eles escalaram diversos picos russos, incluindo a primeira ascensão do Pico 5800m, que batizaram de “Pico da Boa Vontade” (Peak Goodwill).
Francys também se tornou a primeira mulher americana a descer de esqui o Monte Elbrus, no Cáucaso, e alcançou os cumes leste e oeste dessa montanha.
Além disso, o casal escalou o Denali, no Alasca, pela rota West Buttress, consolidando sua reputação como uma dupla formidável.

O maior sonho de Francys era se tornar a primeira mulher americana a alcançar o cume do Monte Everest sem o uso de oxigênio suplementar.
Um feito que exigia não apenas habilidade técnica, mas também uma resistência física e mental extraordinária.
A decisão de escalar sem oxigênio era particularmente ousada, já que a “zona da morte” — a região acima de 8.000 metros, onde o oxigênio é extremamente escasso.
Além disso, representa um risco mortal mesmo para os alpinistas mais experientes.
A Expedição ao Everest em 1998

Em maio de 1998, Francys e Sergei chegaram ao acampamento base do Everest, na face norte, pela rota do Tibete.
Eles planejavam alcançar o cume sem oxigênio suplementar, uma empreitada que aumentava significativamente os desafios físicos e logísticos.
A partir do dia 17 de maio, o casal começou sua ascensão, alcançando o North Col e, no dia seguinte, uma altitude de 7.700 metros.
Em 19 de maio, eles chegaram ao Acampamento 6, a 8.200 metros, onde relataram por rádio que estavam em boas condições e prontos para iniciar a tentativa de cume no dia 20.
No entanto, a expedição enfrentou contratempos.
Na primeira tentativa, no dia 20 de maio, uma falha nas lanternas frontais os forçou a retornar ao Acampamento 6.
No dia 21, eles subiram apenas 50 a 100 metros antes de serem novamente obrigados a retroceder devido às condições adversas.
Finalmente, em 22 de maio, Francys e Sergei fizeram sua tentativa final.
Eles alcançaram o cume do Everest tarde demais no dia, um fator crítico em expedições de alta altitude, onde o tempo é essencial para evitar a exaustão e os perigos da zona da morte.
Sem oxigênio suplementar, a ascensão foi lenta e exaustiva, e o casal foi forçado a passar a noite acima de 8.000 metros.
A Tragédia na Descida
Os detalhes do que aconteceu durante a descida são incertos, mas as reconstruções mais plausíveis baseiam-se em relatos de outros alpinistas.
Durante a noite de 22 de maio, Francys e Sergei se separaram na escuridão, possivelmente devido à exaustão extrema e à desorientação causada pela falta de oxigênio.
Na manhã de 23 de maio, uma equipe de alpinistas uzbeques encontrou Francys a poucos metros do cume, semi-consciente, sofrendo de privação de oxigênio e frostbite severo.
Incapaz de se mover sozinha, ela foi auxiliada com oxigênio e carregada por eles o mais longe que puderam.
No entanto, esgotados e com suprimentos limitados, os uzbeques foram forçados a deixá-la para trás, ainda viva.
Enquanto desciam, os uzbeques cruzaram com Sergei, que subia desesperadamente com oxigênio e medicamentos para resgatar sua esposa.
Foi a última vez que ele foi visto vivo.
No dia 24 de maio, os alpinistas britânicos Ian Woodall e Cathy O’Dowd, junto com outros uzbeques, encontraram Francys no mesmo local onde fora deixada.
Ela estava deitada de lado, ainda presa à corda fixa, com a pele pálida e lisa devido ao frostbite, parecendo uma boneca de porcelana.

Suas últimas palavras, relatadas por O’Dowd, foram angustiantes: “Não me deixe”, “Por que estão fazendo isso comigo?” e “Sou americana”.
Apesar de mais de uma hora tentando ajudá-la, Woodall e O’Dowd, enfrentando condições extremas e risco de morte, foram forçados a abandoná-la.
Francys morreu naquele mesmo dia, 24 de maio de 1998, aos 40 anos, vítima de hipotermia e edema cerebral.
Sergei, presumivelmente, caiu fatalmente enquanto tentava alcançá-la, já que seu corpo foi encontrado em 1999, mais abaixo na face da montanha, junto com seu machado de gelo e corda próximos ao corpo de Francys.
O Legado da “Bela Adormecida”
O corpo de Francys permaneceu visível na rota principal de escalada do Everest por quase nove anos, de 1998 a 2007, tornando-se um marco sombrio para outros alpinistas.
Sua posição serena, deitada na neve, levou à alcunha de “Bela Adormecida do Everest”.
A visão de seu corpo, junto com o de outros alpinistas como “Green Boots” (Tsewang Paljor), alimentou debates éticos sobre o montanhismo no Everest.
Por que tantos passaram por ela sem conseguir salvá-la?
O que a comercialização do Everest revela sobre as prioridades dos alpinistas na zona da morte?
Em 2007, Ian Woodall liderou a expedição “The Tao of Everest”, com o objetivo de dar um enterro digno a Francys e a outros alpinistas.
Seu corpo foi envolto em uma bandeira americana, acompanhada de uma nota de seu filho, Paul Distefano, e movido para um local mais baixo na montanha, fora da vista dos escaladores.
Esse ato trouxe um fechamento simbólico à sua trágica história.
Impacto e Reflexão
Em conclusão, a história de Francys Arsentiev é uma narrativa de coragem, amor e tragédia.
Sua determinação em alcançar o cume do Everest sem oxigênio suplementar a colocou na história como a primeira mulher americana a realizar esse feito.
No entanto, sua morte, junto com a de Sergei, destaca os perigos implacáveis do montanhismo em alta altitude e as escolhas impossíveis que os alpinistas enfrentam na zona da morte.
Francys deixou um filho, Paul, de um relacionamento anterior, que aos 11 anos teve que lidar com a perda da mãe após ter um pesadelo premonitório na noite anterior à sua partida para o Everest.
Sua história continua a inspirar e alertar gerações de alpinistas sobre os riscos de subestimar a montanha mais alta do mundo.
A “Bela Adormecida do Everest” permanece como um símbolo da fragilidade humana diante da grandiosidade da natureza.